Guiada pela música

Foi um encontro esperado: a cantora e compositora Elizah desejava conhecer a Casa Grande e nós a ela.Afinal, a amizade que começou em São Paulo, no show de Os Cabinha, foi o embrião para vários projetos interessantes, como a participação dos meninos no disco do grupo Aquarela Carioca. A realização da I Mostra de Artes dos Países de Língua Portuguesa, que acontecerá em maio deste ano.
Nesta entrevista, Elizah conta que no último dia 19 realizou um sonho acalentado ao longo do ano, se apresentando na festa de aniversário de 16 anos da Fundação Casa Grande, ao lado do músico e marido Paulo Brandão e das bandas Os Cabinha e Abanda. Na conversa abaixo, Elizah transborda música, abrangendo desde suas primeiras experiências sonoras até um eficiente panorama do mercado independente.


Entrevista por Valêsca Moura

 

Como foi o inicio de sua carreira?

Desde os cinco anos eu canto no coral da igreja. Meu pai é bispo e minha mãe era maestrina do coral. Na minha casa se escutava muito radio, minha mãe cantava o tempo todo. Quando nós fomos para África, o que tinha começado a ser construído terminou de se construir, porque lá em Moçambique tudo é na base da música: desde a mulher que oferece as frutas até o padeiro, todo mundo canta, todo mundo é muito musical.


E quando retornou ao Brasil, como estava sua carreira?

Na volta de Moçambique morei no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Foi lá que começou o meu maior contato profissional com a música. Fiz conjunto de baile, gravava jingles, fazia locução e comecei a encontrar os músicos e a construir um trabalho autoral. Sou letrista e o Guinha Ramirez, um músico gaúcho, faz a parte de música e arranjo.


Qual a história dos seus três discos? 

O primeiro disco foi gravado no Rio Grande do Sul, chama-se “Como o diabo gosta”. O segundo é o “Beijo Manga”, que foi gravado em Viena, na Áustria, com a participação de músicos de diversos lugares. O de Senegal, que gravou “os sons da infância”, foi o Dime Falquer.O terceiro disco foi gravado em São Paulo. São músicas de vários jovens autores: Victor Ramil, Ney Lisboa, Sergio Santos, Tânia Maria, além de cantores já consagrados, como João Bosco e Chico Buarque. Tem participação de Yamandú Costa, Provêta, Toninho Ferragute e Renato Braz.


 Além dos seus pais, que outros mestres lhe inspiraram? 

Eu escutei muita música brasileira. Bastante Elis Regina, Tom Jobim, Leni Andrade, além das cantoras de Jazz que eu gostava muito, como Sara Vogan. 


Como foi seu primeiro contato com o Paulo Brandão?

Nós nos conhecemos através da música. Foi no palco, em 1998. Eu estava fazendo um show no Rio de Janeiro, ele assistiu, depois do show veio conversar. Ficamos amigos até 2001, quando começamos a namorar. Nos casamos em 2006. 
 

Já são quantos anos de carreira? 

O primeiro disco saiu em 1995, se contar pelos discos. Mas eu costumo usar “caminho”. Carreira parece que você quer chegar em algum lugar e eu acho que com a música a gente não quer chegar a lugar nenhum. O caminho é que é o bacana, né? Então o meu caminho começou em 1995, mas espero que ainda tenha muito caminho pela frente. 


Como são feitas suas composições? Em que são baseadas? 

São baseadas no meu cotidiano, em alguma coisa que me chama a atenção e que vivencio. “A Rose cheia de pose”, por exemplo, era uma menina vendedora lá de Florianópolis. A cada dia ela vendia uma coisa diferente: era laranja, pato, cachorro, peixe, verdura. Sempre que eu passava, me perguntava: “o que será que a Rose está vendendo hoje?”. Essa idéia ficou na minha cabeça e nasceu a música. E toda a parte de composição minha é sempre assim, é uma crônica de um fato muito perto de mim.
Eu vi uma entrevista do Tom Jobim em que ele dizia: “A coisa mais universal que existe é o meu quintal. Para eu conseguir falar para o mundo, preciso falar da minha própria história, do que eu conheço”. Tom Jobim foi mestre nisso: ele amava a natureza, tinha um sitio. Foi ali que ele compôs “Chovendo na Roseira”,  a “Águas de Março” também. Tudo isso se passou naquele sitio, que era onde ele ficava muito tempo, conhecia os pássaros pelos nomes científicos, as árvores. Ele falava do que era dele, por isso é tão universal. Tom Jobim toca no mundo inteiro. Uma vez fizeram uma pesquisa e a música dele era mais tocada que a dos Beatles. Ele brincava e dizia: “E eles são cinco e cantam em inglês. Eu sou só um e canto em português”.


Como soube da existência da Fundação Casa Grande? 

Pelo do Edson Natale, do Itaú Cultural de São Paulo, meu grande amigo, um cara que tem um ímã para atrair coisa boa. Através dele e do Projeto Rumos eu conheci o Alemberg. Eu vi o Alemberg uma vez e parece que já conhecia a vida inteira. Ele já está na vida das pessoas sem que elas saibam, então quando a gente o conhece, é como se estivesse revendo um amigo. E Alemberg se tornou imediatamente nosso amigo. A nossa curiosidade era de conhecer pessoalmente a Casa Grande. Viajamos do Rio de Janeiro para São Paulo especialmente para assistir “Os Cabinha”. Faltava vir até aqui, era um sonho que estava sendo planejado durante o ano todo, muito programado e muito esperado para nós. É como se estivéssemos em um lugar encantado. Para nós, a Casa Grande é uma casa encantada. 

Como soube da existência da Fundação Casa Grande? 

Pelo do Edson Natale, do Itaú Cultural de São Paulo, meu grande amigo, um cara que tem um ímã para atrair coisa boa. Através dele e do Projeto Rumos eu conheci o Alemberg. Eu vi o Alemberg uma vez e parece que já conhecia a vida inteira. Ele já está na vida das pessoas sem que elas saibam, então quando a gente o conhece, é como se estivesse revendo um amigo. E Alemberg se tornou imediatamente nosso amigo. A nossa curiosidade era de conhecer pessoalmente a Casa Grande. Viajamos do Rio de Janeiro para São Paulo especialmente para assistir “Os Cabinha”. Faltava vir até aqui, era um sonho que estava sendo planejado durante o ano todo, muito programado e muito esperado para nós. É como se estivéssemos em um lugar encantado. Para nós, a Casa Grande é uma casa encantada. 

  
E como está sendo a estadia aqui? Lembro que no show você falou que chorou em alguns momentos... 

Houve muitos momentos em que chorei, porque é uma emoção muito grande. É como se a gente “estivesse se encontrando com a gente mesmo”, é uma emoção de mergulhar dentro da própria infância, dentro da própria raiz do nosso trabalho, da música, do que é bonito, do que é essencial para ser feliz. Vou ter a dimensão disso tudo quando chegar em casa: aí que vai cair a ficha e eu verei o tamanho de tudo que aprendi aqui.


Como foi a montagem do show que você e o Paulo Brandão fizeram junto com Abanda e Os Cabinha? 

A gente escolheu algumas músicas, mandamos para o Helinho e trocamos idéias. Não queríamos um show da gente, mas do grupo. Tanto é eu e o Paulo fizemos só uma música , e as demais ou foram com Os Cabinha, ou com Abanda, ou todo mundo junto. Também não mandamos muitas idéias de arranjo, preferimos ouvir o que vinha deles, para que as músicas tomassem um sotaque do lugar. “A Rose...” ficou toda diferente da gravação. Acho que interpretar a música é enriquecê-la. Improvisar em cima de uma música é falar o que pensa sobre ela. Então essa foi a preocupação: que ficasse tudo com a cara de Os Cabinha de Abanda e que, na verdade, participássemos do show. 


E os ensaios? 

Foram incríveis, o pessoal já tinha ensaiado tudo. Então, quando chegamos, foi só tocar e amadurecer. É importante ter essa vivência com a música, ensaiar, tocar muitas vezes, amassar e desamassar, senão ela não sai amadurecida. 
 

Antes do show há uma preparação? 

É que nem jogo: tem que concentrar antes de entrar em cena, não pode estar disperso, tem que se fechar no camarim, ficar quieta. Quando boto o pé no palco estou totalmente concentrada no que eu vou fazer. É importante esse tempo de aquecimento, é exatamente como futebol: entrou é para jogar. 


Estando em cima do palco, o que não pode faltar? 

Quando estamos a serviço da música temos que usar tudo que temos: o corpo, a ginga, a alegria. Antes de entrar no palco, eu imagino que estou transparente, que sou de vapor e que tudo vai passar por mim como se eu fosse invisível. No palco não pode mentir, no palco tudo aparece, então você tem que estar exposto aos outros e entregar o que você tem de melhor. Assim você se disponibiliza para a música e para as demais pessoas que estão escutando, e aí é que acontece a troca. O que vem da platéia entra em você e você responde, e aí se cria esse canal de comunicação, que é o segredo do espetáculo. A emoção do show está na troca.


O que é música de qualidade?

É a música a serviço da música. É não fazer uma música pensando em ficar rico ou para fazer sucesso. Eu acho também que as pessoas precisam ter uma idéia do que é música comercial. Uma vez perguntaram isso para o Hermeto Pascoal: “Por que sua música não é comercial?”. Na época quem estava muito em moda era o grupo É o Tchan e ele falou assim para a repórter: “faça o seguinte, minha filha: pegue uma música minha e toque a quantidade de vezes que vocês tocam a música do Tchan. Aí, daqui a seis meses, você vem e me faça a mesma pergunta”. Quer dizer: às vezes não é que a música não seja comercial, mas ela simplesmente não toca nos lugares a quantidade de vezes que as outras músicas tocam. O que é de qualidade é perene. 
 
 
Como você vê o mercado da música hoje no Brasil? 

O mercado está mudando, as grandes gravadoras ainda existem, só que mais com a função de distribuir o trabalho do que propriamente investir no artista. Com isso ele está procurando ser dono da sua própria obra. Ele mesmo produz, cuida do repertório, disponibiliza na Internet, se comunica com seus fãs. Está exigindo do artista que ele saiba um pouco de tudo, não pode se dar ao luxo de ser apenas cantor. Não existe mais essa figura. Por isso o trabalho aqui da Casa Grande é tão importante: você tem que entender de tudo. Acho que essa nova realidade do mercado tornou o trabalho do artista muito mais amplo. Um exemplo é o Lobão que durante uma época lançou discos em revistas [Outra Coisa] e vendia em bancas. Com o CD não se ganha dinheiro, ganhamos fazendo apresentações, divulgando o trabalho. Hoje, se você tiver o equipamento no seu quarto, grava um CD em casa. Mas como é que isso chega às pessoas? Você tem que criar alternativas, tendo um site, baixando músicas. Estou muito feliz, pois acho que está rolando uma porção de movimentos de artistas, que estão fazendo uma espécie de “Brasil não tão visto na grande mídia”, mas que se sustenta por si só. Hoje há festivais de rock independente organizados pela ABMI, que é a Associação Brasileira de Música Independente. Cada artista está tendo o seu próprio selo, se apoderando do seu trabalho, tendo que ser criativo para poder se comunicar com as pessoas. Você é independente, você prima pela sua qualidade e pelo seu desejo.


O que é arte para você? 

A arte é uma coisa livre, não pode estar a serviço de ninguém. O artista tem que ser livre para pensar e dizer o que quiser. Viver com liberdade e, principalmente, essa liberdade sendo baseada em conteúdo, que é uma das grandes missões e vocações da Casa Grande. Aí você revoluciona o mundo.  

 
Qual mensagem você deixaria para a Casa Grande?

Minha mensagem é de admiração pelo trabalho da Casa Grande. O que se faz aqui é o que vai mover a mudança. As pessoas que saírem daqui terão um nível muito alto de qualidade de vida e de arte. Então gostaria de deixar um grande abraço para todos e meus parabéns por esses 16 anos, com essa vocação maravilhosa de formação de cidadão