do Brasil é muito mais e muito mais rico e variado do que aquele que os livros de História nos foram transmitindo.
Ao mesmo tempo, que estão tomando essa consciência, os pesquisadores portugueses estão tentando recuperar o conhecimento e, com rigor, partir à descoberta da história e do patrimônio Brasileiro, antes e depois da colonização mas, também, desse imenso patrimônio que veio a originar a identidade brasileira atual resultante da miscigenação das cultura de África, Europa, sobretudo Portugal, e Brasil e que se construiu ao longo dos tempos até hoje.
O interesse no conhecimento desse identidade multicultural é, naturalmente, imenso; é do tamanho dos desejo que pesquisadores portugueses e pesquisadores brasileiros têm na busca comum de conhecimento para fazer uma nova leitura da história deste imenso país.
E especificamente do Cariri, o que se sabe?
Profa. Dra. Maria da Conceição Lopes - Em Portugal sabe-se muito pouco. Apesar do pioneirismo da região na colonização do Ceará, a história não lhe registrou muita importância. Sua reserva fossilífera e pesquisas paleontológicas com fósseis de 110 milhões de anos, tornam-na conhecida no mundo e os. antropólogos, arqueólogos, geólogos e pesquisadores das ciências da terra de Portugal conhecem bem o seu extraordinário Patrimônio histórico, arqueológico, cultural e natural.
Qual a visão que arqueólogos e profissionais ligados à área de patrimônio têm do Cariri? Desperta curiosidade e interesse de pesquisadores?
Profa. Dra. Claúdia Oliveira- UFPE - Sim. Nossa visão é que existe um patrimônio cultural riquíssimo e pouco explorado, sobretudo o patrimônio arqueológico. Desperta grande interesse na medida em que muitas questões da nossa pré-história serão respondidas com a expansão das pesquisas nesta região.
Dra. Sônia Rampim Florêncio - Coordenação-geral de Promoção do Patrimônio Cultural Brasileiro - Cogeprom- IPHAN- A região do Cariri é um verdadeiro caldeirão cultural do Nordeste com enorme diversidade de expressões da cultura popular. Além disso, possui muitos sítios arqueológicos, que podem possibilitar o encontro com a identidade coletiva da humanidade, com sua origem. Foi o território de muitas etnias indígenas e, também, um verdadeiro ponto de encontro entre as culturas indígenas, ibérica e africana o que dotou a região de forte manifestação de patrimônio imaterial brasileiro. A fé, os saberes e fazeres, as formas de expressão do povo do Cariri constituem, sem dúvida, um vasto campo de interesse para pesquisadores, estudantes e pessoas que intencionam entrar em contato com a diversidade cultural brasileira.
Profa. Dra. Conceição Meneses Lage- Fundação Museu do Homem Americano- UFPI - O de uma área especial do ponto de vista natural e cultural, que guarda tesouros científicos como: sítios paleontológicos, arqueológicos, rica biodiversidade e um belo exemplo de ação social demonstrativa de que o Brasil dá certo, basta apenas ter vontade de fazer corretamente. Este exemplo é a Fundação Casa Grande. A região é de grande interesse científico, sobretudo por estar entre duas grandes regiões arqueológicas: a Serra da Capivara, no Piauí e o Seridó, no Rio Grande do Norte. Precisamos evidenciar as rotas migratórias do homem no passado.
Profa. Dra. Jacionira Coelho Silva– UFPI - O Cariri representa um exemplo da preservação de bens patrimoniais. Percebe-se que há um consenso em torno dos valores culturais que une as comunidades locais, a ponto de se poder considerar o Cariri ele próprio uma unidade patrimonial. Por todas as práticas culturais observadas na região, as pesquisas devem iniciadas com urgência, umas, e ampliadas, outras já começadas.
Como justificar a importância de comunicar descobertas (e preservar o que já se conhece) para um morador local, para trabalhadores de obras e outras pessoas que acabam se envolvendo diretamente na descoberta de sítios, ou ainda que convivem nestas regiões?
Profa. Dra. Claúdia Oliveira- Ultimamente, numa perspectiva da arqueologia social, é impossível desvincular o papel do pesquisador isolado da comunidade, portanto é essencial a divulgação do conhecimento produzido por este pesquisador, como uma forma de um compromisso com a sociedade (um retorno daquilo que lhe pertence), assim como uma forma de sensibilizar a população, educar, pois sabemos que só pode preservar o que se conhece.
Sônia Rampim Florêncio – Envolver a comunidade local nas descobertas arqueológicas e dotar de sentido a preservação dos sítios já conhecidos, é a única forma de se obter sucesso nas políticas públicas para a preservação do patrimônio. Isso só pode ser feito se houver apoio à ações educativas significativas e contextualizadas, que primem por um envolvimento verdadeiro da comunidade. Só assim a valorização do patrimônio arqueológico não seguirá a valorização mercadológica dos bens, mas a sua importância enquanto reveladores de um passado e identidade comuns à humanidade.
Profa. Dra. Conceição Meneses Lage - Toda comunidade tem direito e precisa saber que nossa história começa muito antes a chegada do europeu colonizador. O homem sempre buscou entender sua origem e é a conhecendo que adquire auto-estima e busca melhores meios de sobrevivência. Não se preserva nenhum patrimônio se não nos sentimos donos dele e para isso é preciso entender que fazem parte de nossas vidas.
Profa. Dra. Maria da Conceição Lopes - Considero da maior importância que se comunique a todas as pessoas as descobertas e que todos sejam convocados para o trabalho de descoberta e preservação do patrimônio. O patrimônio é um elemento fundamental da memória coletiva dos povos, da identidade genética das comunidades, portanto, é parte integrante dos conteúdos de todas as gentes. Sendo de todos, todos devem participar do seu usufruto incluindo a sua preservação e a aprendizagem por via dele Considero ser dever daqueles que, por circunstâncias diversas melhor o sabem identificar, mais meios e suporte técnico encontram para o valorizar e disponibilizar para usufruto, deverem colocar o seu saber ao serviço dos outros que menos sabem, ensinando-os e estimulando-os a participar na compreensão do patrimônio como recurso fundamental num processo de desenvolvimento integrado e na criação de melhores condições e qualidade de vida.
Profa. Dra. Jacionira Coelho Silva - Fazendo-os compreender que são marcos de sua identidade. Falar para essas pessoas sobre a antiguidade de um sítio, que os realizadores daqueles vestígios podem ser em potencial seus ancestrais, tem elevado em muito a auto-estima de pessoas que se consideravam despossuídas de tudo. Para os de fora, há que lembrar que os povos pré-históricos são antepassados comuns de todos nós.
Existe uma fórmula ideal para formar o tripé: arqueologia, educação e turismo?
Profa. Dra. Claúdia Oliveira- Pensamos que se o turismo for bem planejado ele poderá ser um instrumento de educação e de preservação. Assim, a pesquisa arqueológica poderá contribuir nesta direção. Ao estudar, como por exemplo, um determinado sítio, ela fornece conhecimento que poderá ser explorado do ponto de vista educacional e do turismo.
Sônia Rampim Florêncio - Não acredito em fórmulas ideais. Acredito que, em cada lugar, em cada contexto histórico e social , ações educativas poderão ser estabelecidas de forma participativa e inclusiva. As instituições, públicas ou não, deverão exercer o papel de mediadores na construção coletiva de parâmetros, de ações educativas para valorização do patrimônio cultural local e, também, de seu aproveitamento, de forma sustentável, para o turismo.
Profa. Dra. Conceição Meneses Lage - Sim. Todo sítio arqueológico deve ser inicialmente estudado cientificamente, depois preparado para receber turistas e estudantes, que vão conhecer melhor a sua história, que não está escrita nos livros. O turismo bem programado e orientado é benéfico aos sítios, pois é o que ajudarão a mantê-los. O mundo já entendeu isso e vem crescendo o número de sítios arqueológicos preparados para receber visitantes como nos parques nacionais de Kakadu na Austrália, Serra da Capivara, no Piauí, Cueva de las Manos, na Argentina, Vale do Coa, em Portugual. Um outro bom exemplo de preparação de turismo autosustentável é a Gruta de Lascaux, na França, onde foi construida uma cópia do sítio original para abrir ao turismo e o número de visitantes/ano é que mantém a gruta verdadeira.
Profa. Dra. Maria da Conceição Lopes - Não existe magia nesta fórmula. Existem sérias possibilidades de transformar a fórmula numa fórmula de sucesso, de acordo com as regiões e os meios que se adequem. Mas esta fórmula contém elevado potencial de aplicação e funcionamento se, sobretudo, a preenchermos com trabalho de educação e de capacidade de convocação dos cidadãos para o exercício pleno da cidadania. Se formos capazes de a pôr em marcha é certo que o desenvolvimento regional e o bem estar das comunidades se desenvolve como que por magia.
Penso, portanto, que é uma fórmula que adaptada com inteligência e imaginação às realidades e especificidades dos espaços, comporta uma capacidade de multiplicação de recursos que bem repartidos e racionalmente investido, pode ser fundamental para inverter a tendência de empobrecimento, degradação, social e educacional e conseqüente êxodo das populações do interior e das nas regiões periferias das cidades.
Profa. Dra. Jacionira Coelho Silva - Não. Precisa ser construída em cada ocasião, tendo por base o respeito aos direitos dos cidadãos e a responsabilidade dos profissionais envolvidos na união desse tripé.
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