Entrevista com Joquinha Gonzaga:
sobrinho de Gonzagão e neto de Januário

Entrevista com Joquinha Gonzaga para o programa Forró Pé de Serra e site da Fundação Grande, falando da sua carreira, os ensinamentos deixados por seu Tio Luiz Gonzaga e a gravação do seu DVD no Teatro Violeta Arraes- Engenho de Artes Cênicas.

Como foi o inicio da sua carreira de cantor e compositor, e quem mais o incentivou?

Iniciei minha carreira aos 15 anos, incentivado pelo meu tio Luiz Gonzaga. Ele que me deu a primeira sanfona, me ensinou e me puxou. Dos sobrinhos dele só eu tive o dom de tocar forró, tocar sanfona e cantar. O filho dele, que era Gonzaguinha, teve outro estilo MPB, mas também foi um grande artista. Temos na nossa família grandes artistas, Figueiredo Januário, irmão do Luiz Gonzaga, tocava oito baixos. Zé Gonzaga um grande cantor, compositor, sanfoneiro, instrumentista, Chiquinha Gonzaga minha tia, Aluízio que era o mais novo, um grande ritmista de Luiz Gonzaga. Enfim, e eu que trilhei nessa estrada trabalhando com ele muitos anos, gravei com ele, ele gravou no meu, gravou música minha, viajamos muito, fizemos muitos shows por aí e quando tio Gonzaga faleceu, segui minha carreira solo, sozinho cantando até hoje, procurando proteger, defender e divulgar o forró pé de serra. São muitos os seguidores de Luiz Gonzaga. Temos Dominguinhos, Trio Nordestino, Elba Ramalho e por aí a fora. Grandes sanfoneiros Jenário, Waldonis, Targino, Cezinha do Arcodeon, e o nosso pai que é o próprio Dominguinhos, que é o cara que sabe tudo, todos os sanfoneiros que vão surgindo se espelham em Dominguinhos.

O que Luiz Gonzaga representa para você?

Luiz Gonzaga representou tudo para mim, foi um pai, um tio, um amigo, foi meu professor, um cara que me deu o primeiro presente, me sustentou trocando de sanfona, uma pessoa que sempre me ensinou o caminho do bem. Hoje eu tenho uma educação artística graças a Luiz Gonzaga, procurando ser correto, mais próximo possível, sendo cumpridor do meu dever. Tio Gonzaga era muito rígido, então ele ensinava a gente e esperava que a gente também cumprisse com o dever, e foi assim que aprendemos, eu e meu irmão Piloto, que era ritmista de Luiz Gonzaga. Meu tio foi tudo para mim, e me orgulho muito em falar dele e fico mais feliz quando vejo as pessoas o defendendo.

Como foi ter recebido a primeira sanfona das mãos do seu tio?

Para mim foi uma surpresa muito grande. Primeiro porque eu não sabia de nada, até os 14 anos eu não tinha dom nenhum pra sanfona, era apenas um estudante. Tio Gonzaga que olhou para mim, não sei o que ele viu, mas achou que eu poderia ser um sanfoneiro e me deu a primeira sanfona, uma pé de bode oito baixos, que hoje está em extinção. Foi uma sanfona em que meu avô começou a tocar e peguei e comecei a aprender, dentro de uma hora já sabia tocar. Foi uma alegria muito grande porque passei a me espelhar em Luiz Gonzaga, ouvindo seus discos, tocando com ele.

 

Você lembra qual foi a primeira música que você aprendeu na sanfona?
Não me lembro bem não, mas lembro que foram músicas do meu avô que minha mãe cantarolava, ensinava para mim e aprendi a tocar na sanfona de oito baixos. Eram musicas do meu avô Januário e do meu tio Severino Januário. Músicas soladas, instrumentais.

Como foi a gravação do seu primeiro trabalho?
Foi um negócio engraçado. Na época era disco de vinil. Em 1986 eu trabalhava com o meu tio Luiz Gonzaga e pedi dispensa porque viajava muito com ele. Achei que não estava tendo muita vantagem: o meu sonho era gravar produzir alguma coisa. Cheguei para tio Gonzaga e falei que gostaria que ele me dispensasse, porque eu iria para o Rio de Janeiro e ficaria tocando por lá. Ele me perguntou: “o que você vai fazer lá?”.  “Vou ficar tocando naqueles forrós, tentando fazer alguma coisa por lá”.  Então ele pediu que eu fizesse um último show com ele. Fizemos em Minas Gerais, em uma cidade chamada Itaobim. Fizemos esse show e ele me deu uma grana. Não lembro direito, foi 30 mil e alguma coisa, era muito dinheiro. Para você ter uma idéia, comprei um Chevete usado, e com a metade do dinheiro eu fiz um disco, gravei matéria paga para virem todos os músicos. A partir daí tio Gonzaga começou a descobrir que eu tinha talento para seguir em frente. No segundo ele já participou do meu. Mas infelizmente eu comecei tarde, porque foi em 1987. Já em 1988 tio Gonzaga estava doente, me apresentando como herdeiro musical. Tanto que no meu disco ele me apresenta, tem um CD aí, que é “O Sanfoneiro da Serra do Araripe”, em que ele me apresenta, não para ser o Rei do Baião, mas para ser um seguidor de Januário.

Quantos trabalhos gravados?
Já gravei cinco discos e cinco CDs.

Qual sua opinião sobre o forró eletrônico, que está sendo bastante ouvido pela população em geral, até mais que o pé-de-serra?

Eu não tenho nada contra, só que o nome que colocaram é errado. Forró é o nosso, o forró é aquele que Luiz Gonzaga fez, divulgou, é o que a gente toca. Eu seria mais feliz se estivessem colocado outro nome. Para a gente se defender, tivemos que criar o nome forró pé-de-serra, e eles ganharam o nosso nome forró, que na verdade, para mim, não é forró não.

Como foi a seleção de músicas para o repertório do seu DVD?Algum sucesso novo?
Procurei colocar minhas músicas mais conhecidas, porque tenho muito medo de pôr de outras pessoas e elas começarem a cobrar os direitos autorais. Hoje, infelizmente, a gente tem esse medo, mas estamos procurando botar musicas do meu tio e dos meus colegas como Flávio Leandro, João Silva, Chico Bezerra. Fica mais fácil para pedir autorização.

Como está sendo para você tocar aqui no Teatro Violeta Arraes? Qual sua expectativa?
Estou muito apreensivo, estou doido para ver o a reação do público, é a primeira vez que toco no teatro, sempre ouvir falar muito bem de vocês da Casa Grande, o profissionalismo de vocês, e estou também contando com o povo de Nova Olinda para participar.

Deixe uma mensagem para nós!
Eu aconselho vocês a prestigiar, a participar e ver o lado bom e o lado bonito desse pessoal, essas crianças que tem um futuro enorme, e se dedicam. Notei que aqui vocês se entregam a fazer o melhor possível e inclusive procuram sempre agradar a gente, procuram ensinar, mostrar a evolução de vocês, muitas coisas aqui de primeiro mundo, a também alguns artistas e nomes que prestigiam vocês também. Estou participando pela primeira vez, estou gostando, espero manter uma ligação com esse grupo, e estou tendo a oportunidade de gravar aqui no teatro, que por sinal é muito bonito, estou tendo esse privilégio de gravar meu DVD e mostrar o povo todo o trabalho que vocês fizeram aqui, então eu estou muito feliz de está no meio de vocês, vou fazer questão de mostrar a todo mundo quando esse trabalho estiver pronto, seja onde eu for, eu sobrinho de Gonzagão e neto de Januário.