Paulinho Boca de Cantor, um dos integrantes do grupo Novos Baianos, veio para o Cariri participar da 10ª Mostra Sesc Cariri de Cultura, onde abriu o Palco Musical. Em seu novo trabalho, Paulinho faz uma homenagem aos Novos Baianos, tocando em seu repertório músicas compostas pelo grupo para relembrar o seu passado sonoro.
Em uma entrevista aos assessores de imprensa e jornalistas da Fundação Casa Grande, Valêsca Moura e Jenfte Alencar, Boca de Cantor falou da sua carreira e suas impressões sobre a região, a Mostra Sesc e a Casa Grande, tão falada por seu filho e nosso colaborador, o também músico Betão Aguiar.
Como iniciou sua carreira musical? E o que lhe fez seguir essa carreira?
Minha missão de vida foi sempre cantar, por isso que meu nome é “Boca de Cantor”.
Eu comecei numa cidadezinha lá do interior da Bahia, chamada Santa Inês. Passou uma vez um caminhãozinho que distribuía brindes. Essa é a primeira lembrança que tenho cantando. Tinha seis anos e cantei uma marchinha de carnaval que estava fazendo sucesso, que dizia assim, “Zé pequeno é um soldado de morte, batia na mulher e no tambor, era pequeno mas sempre deu sorte com mulher de qualquer cor”, e esqueci a letra, dei uma gaguejada e todo mundo riu. Não ganhei porque tinha cantado da melhor maneira, mas por ter divertido o público, e foi assim que começou. Hoje eu sou conhecido em todo o Brasil, pela minha música, por minha participação dentro da cultura brasileira através dos Novos Baianos, pelo meu humor, pela minha brincadeira, todo mundo gosta de estar perto, e eu estou muito feliz de estar aqui.
Quando e como foi criado os Novos Baianos?
Começamos assim, amigos dizendo: “vamos fazer um show juntos?”, e todo mundo fala: “esse cara está maluco!”. Eu trabalhava em uma companhia americana, tinha até secretária. Era jovem em 1979, tinha 23 anos, já trabalhava nessa companhia, tinha feito concurso, passei. Moraes Moreira trabalhava em um banco. Galvão, um dos letristas dos Novos Baianos, era engenheiro agrônomo, e nós três nos conhecemos e não nos largamos mais. Igual a vocês aqui na Casa Grande: ficamos juntos. Eu cantando as músicas deles - já morava na capital (Salvador) há mais tempo -, fui levando eles para os lugares. Caetano Veloso conheceu o trabalho que estávamos fazendo juntos.
Montamos um show que chamava-se “Desembarque dos bichos depois do dilúvio universal”: a gente descia de disco voador no palco e começava a cantar. Havia algumas pessoas mais antigas na platéia e teve uma que gritou: “se isso for arte eu me suicido”. Era um negocio tão inovador e as pessoas já estavam tão acostumadas com aquela coisa clássica, que tomaram um susto. E aí nascemos os Novos Baianos.
A seguir, uma das músicas dos Novos Baianos que chama “De Vera” foi classificada para o festival da Record, um festival de maior sucesso que tinha no Brasil, foi lá que surgiu, entre outras coisas, o Tropicalismo, que é uma força na música e da qual gente se considera seguidor. Na época, o Caetano e o Gil foram expulsos do Brasil pela Ditadura Militar e os Novos Baianos eram “a bola da vez”. Foi assim que começamos, porque a gente tinha um sonho e, mais ainda, porque naquele momento o Brasil precisava da gente, do nosso humor, da nossa graça e da nossa música.
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Para você, o que é música de qualidade?
Vocês estão aprendendo composição, que é a maneira, a forma certa que pode se estudar para fazer uma música. Isso porque a música foi feita sem o cara conhecer forma nenhuma. O som dos pássaros, por exemplo, é uma música e o passarinho não teve que estudar nada para fazer ela. E a cultura popular mostra isso: aqui mesmo vocês têm pessoas como Patativa do Assaré, que não estudou nada, que nunca saiu daqui e o mundo todo fala dele.
Se você está pensando em fazer algo que nunca ouviu alguém fazer, ninguém cantar, você está criando, tendo iniciativa de ver uma criação própria.
Agora, é claro que para fazer uma música de qualidade é preciso escutar quem faz música de qualidade. Comprovadamente, o passado sonoro brasileiro é muito bonito, o mundo todo respeita. Então, vocês terão que olhar o que é bom na música popular brasileira e tentar fazer ou igual, ou melhor do que eles.
Quando gravou seu primeiro disco?
O primeiro disco dos Novos Baianos foi em 1969, o “Ferro na Boneca”. Essa música participou do Festival.
O que está achando da 10ª Mostra e desta primeira vinda ao Cariri e à Fundação Casa Grande?
Aqui eu sou mais famoso por ser o pai do Betão Aguiar, que é muito querido por vocês, do que ser o Boca de Cantor. E eu fico feliz de conhecer uma coisa que ele me fala muito e que o Brasil está começando a falar com o maior carinho. Muitas personalidades têm vindo aqui querendo ajudar, isso é muito importante. Então, serei mais um agregador desse sucesso que já é a Casa Grande. Sobre a Mostra, eu acho fantástico, porque com a globalização a gente tem muita facilidade de absorver coisas de outro país, de outra cultura e tal, e isso ao mesmo tempo que é bom, que engrandece, também pode fazer você perde sua identidade cultural. É importante que a sandália do mestre Espedito Seleiro possa sobreviver, que outros Espeditos possam nascer aqui. Essa sandália é a cara do Cariri, é a cara de Nova Olinda, é cara de vocês, que têm na mão a responsabilidade, já estão aptos a representar essa cultura brasileira. Para isso que estão aqui na Fundação e eu quero que vocês dêem seqüência e essa maravilha que é a nossa música popular brasileira.
Eu estou encantado, e o maior incentivo que tenho para seguir a minha carreira é ver isso que estou vendo aqui. |